HISTORIANET

Brasil Império

Café Fluminense e a crise de 1889

Café: sua história na província fluminense e a Crise de 1889
Maria I (1777-1816); João VI (1816-1826); Pedro I (1822-1831); Pedro II (1840-1889).





Barão Carta de Brasão a registrada no Livro II, fls. 9/11, do Cartório de Nobreza e Fidalguia do Império do Brasil concedida a 22/11/1881 ao Barão de Avellar e Almeida
A “Banda” diagonal vermelha com 3 estrelas de prata, postas em pala, representa trabalho árduo. A “Abelha”, à direita, simboliza a operosidade, confirmando o trabalho árduo. O “Cafeeiro”, à esquerda, mostra a atividade do Barão de Avellar e Almeida que era fazendeiro de café. A divisa em latim Virtute et Honore significa Virtude e Honra, que é uma confirmação dos valores éticos e sociais da família Avellar e Almeida.

Autor: Anibal de Almeida Fernandes, Novembro, 2009.
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Gênesis do Café.

Tudo começou nas montanhas da Etiópia, Arábia Saudita ou Pérsia, não se sabe ao certo, antes do século 5º d.C., onde o Cahue = força/vigor em árabe que é o nome do café, chamou a atenção de um pastor de cabras, pois os animais comiam, vorazmente os frutos vermelhos de um arbusto. Mais tarde, os grãos de café eram transformados em uma pasta misturada com uma espécie de manteiga. Daí foi para a Arábia onde os grãos eram torrados, reduzidos a pó num pilão e este pó era misturado com água fervente como o café turco que, ainda hoje, é feito pelos descendentes de árabes no Brasil e servia como tônico revigorante para os enfermos debilitados. No final do século XV, em Meca, surgiram os primeiros locais públicos de venda de café. Essas casas de café aparecem também em Constantinopla onde o sucesso é tão grande que os pregadores arengavam contra o Carvão, (café torrado) pedindo aos fiéis que abandonassem as casas de café e voltassem para as Mesquitas. Daí, a bordo das naus dos comerciantes, o café chega a Veneza onde é modificada a maneira de fazer o café, pois, aos venezianos, não agradava a maneira turca e eles alteram o preparo para adaptá-lo ao seu gosto: os grãos torrados, e moídos, são colocados num filtro aonde é derramada a água fervente sobre o pó que é filtrado. Essa maneira de preparar o café cai no gosto geral e o café vira moda na Itália e aparecem os salões de café, com instalações sofisticadas para reuniões de amigos; Carlo Goldoni, em 1750, faz a peça La Bottega del Caffé em sua homenagem. O café vai para a França e criam-se os saraus literários em torno do café. Até Luís XV era um apreciador e gostava de preparar o seu próprio café. Na Alemanha o sucesso é tão grande que Johann Sebastian Bach compõe, em 1732, a cantata Kaffee-Kantate: "Ah, como é doce o seu sabor! Delicioso como milhares de beijos, mais doce que vinho moscatel! Eu preciso de café ....". Na Inglaterra as coffe houses não se popularizam e se mantém a primazia inconteste do chá. Em 1820 o químico alemão Friedlieb Runge isolou, no grão de café, o princípio ativo que ele batizou de cafeína, ou seja, algo encontrado no café. No séc. XIX a cafeína, (que aparece também no chá e cacau), é a droga que, segundo alguns, tornou o mundo moderno possível, pois ajudou o homem a se enquadrar no ritmo da luz elétrica permitindo o trabalho num ciclo dominado pelo relógio e não mais no ciclo primevo das estações do ano com sua alternância de noite e dia. No séc. XXI é a droga energética que conquistou o mundo e pelo consenso médico atual, a cafeína interfere na adenosina que é o recurso químico natural do corpo humano que induz ao sono, pois estimula o sistema nervoso central e aprimora o desempenho físico, alem de diminuir a dor, evitar as enxaquecas, reduzir os sintomas da asma e elevar o ânimo.

A Implantação do Café no Vale do Rio Paraíba do lado Fluminense.
Os holandeses levam algumas mudas de café para o Sri Lanka e Java e, de lá, graças ao comércio das companhias holandesas, o café chega às Guianas aonde também chega pelas mãos dos franceses que começam a plantá-lo na Guiana Francesa e, para alguns, detém o mérito de tê-lo introduzido nas Américas graças ao comandante Gabriel de Clieux que vem da França com várias mudas, que não resistem à longa travessia com exceção de uma única muda que durante a viagem fora regada pelo comandante. Está preparado o cenário para a chegada do café no Brasil, com um toque de aventura galante, pois se diz que, em 1727, o sargento-mor português, Francisco de Mello Palheta consegue as mudas proibidas, graças ao apoio romântico de Madame d'Orvilliers que lhe dá sementes de cafeeiros escondidas do marido, o Governador da Guiana Francesa, e que o oficial faz plantar no Pará. Algumas mudas são transportadas para o Maranhão onde se aclimatam esplendidamente, permitindo a exportação para Portugal onde é protegido por decreto de João V que determina que no reino, só entra café do Maranhão. É o incipiente início da formidável aventura econômica do ouro verde do Brasil Império no século XIX, na província fluminense. Cerca de 1761 (ou 1760 conforme Silva Telles) foi trazido, do norte para o Rio de Janeiro, pelo funcionário João Alberto de Castello Branco, mudas de Café que ele ofereceu ao Governador Geral, Gomes Ribeiro de Andrade, Conde de Bobadella. Dessas mudas só 4 vingaram: uma na casa do Castelo Branco, outra no Convento de Santa Teresa, a terceira no Convento dos frades Barbadinhos, à rua dos Barbonos, atual Evaristo da Veiga, onde tem a Polícia Militar, (ou Treze de Maio conforme Silva Telles) e a última, na propriedade do holandês João Hoppman em Mata Porcos (atual Frei Caneca). Das mudas plantadas pelas freiras de Santa Tereza, pelos frades Barbadinhos e de João Hoppman saíram, em 1780, as sementes para as plantações na zona rural da Corte, nas fazendas do Capão do Bispo, da Mendanha e Campo Grande. O padre Antonio Lopes da Fonseca e D. Joaquim Justiniano, bispo do Rio de Janeiro, foram grandes difusores da cultura cafeeira; o primeiro com extensa plantação em sua fazenda da Mendanha e o segundo distribuindo sementes para João Lopes, de São Gonçalo, subdistrito de Niterói e para o padre Couto, da localidade do Caminho de Campo Alegre que, mais tarde, passa a se chamar Rezende, onde o café foi largamente cultivado, a partir de 1783, nas regiões de Morro Redondo, Ponte Alta, e Taquaral. Em 1802, as escrituras já se referem à compra e venda de terras e cafezais como aparece na venda da fazenda Ribeirão Raso, feita por João Leite da Silva para Antonio Pereira Leite. Da fazenda de Antonio Bernardes Bahia, em Rezende, saíram as primeiras sementes para o início da cultura cafeeira em Bananal e Campinas, SP. Saint Hilaire relata que, em Macaé, se cultiva o café por dar menos trabalho que a cana de açúcar e exigir menos escravos.
 
D. João VI
D. João VI, provavelmente, soube do comércio do café no Rio de Janeiro graças aos franco-caribenhos, que fugindo da violenta Revolução dos negros do Haiti vieram para o Brasil e logo detectaram as boas condições de clima e altitude da serra da Tijuca para o plantio e passaram a comercializar café no mercado frente ao Paço onde se hospedou D. João ao chegar. Em 1810, ou 1812, D. João VI mandou vir d'África, sementes de café e as distribui entre os fidalgos que tinham terras no vale do Paraíba e norte de São Paulo. Ele mesmo, com as próprias mãos, dava os pequenos sacos com as sementes e estimulava o plantio, num gesto precursor de uma futura era de extraordinária riqueza para a província fluminense. Este competente e articulado Rei português, tão injustiçado pela história oficial, pressentira o potencial de desenvolvimento e a enorme importância do Brasil para o futuro de Portugal e sua dinastia.
Os presentes de sementes e mudas eram entregues por D. João VI aos fidalgos mais amigos; # Bernardo Clemente Pinto, Conde de Nova Friburgo, com 2 mudas de café vindas de Java, trazidas por colonos suíços. # Braz Carneiro Leão, Marquês de Baependy, e seu irmão José Inácio Nogueira da Gama, foram os que mais receberam as mudas entregues pelo Rei. José Inácio 20 anos após, colhia em suas terras 18.000 arrobas de café.
Do êxito das plantações de Rezende vai o café para as Zonas da Baixada Fluminense, Vale do Paraíba e a zona montanhosa do centro da província fluminense e começam a surgir os extensos campos verdejantes dos cafezais que, no apogeu do 2º Reinado, chegaram a conter 500 milhões de pés de café, o ouro verde do Império.
O Embaixador Raul Fernandes (1877-1969), meu primo, que é nome de rua em Vassouras, foi Deputado Estadual pelo Rio 1903-1909, Deputado Federal pelo Rio 1909-1923, Consultor-Geral da República 1923, um dos 10 membros do Conselho de Juristas convocados para elaborar o Estatuto da Corte Permanente de Justiça, Relator-Geral da Assembléia Constituinte 1933-1937, Delegado do Brasil na Conferência de Paz 1946, Presidente do OAB-Brasil 1945-1948, Chefe da Delegação do Brasil à III Assembléia Geral da ONU, em 1948, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Direito da Usp em 1952 (além dele só receberam o título: Rui Barbosa, Clóvis Bevilacqua, Pimentel Mendes). Foi ainda embaixador na Bélgica em 1926 e durante o governo de Eurico Gaspar Dutra, foi ministro das Relações Exteriores (1946-1951), e novamente ministro no governo de João Café Filho (1954-1955), filho insigne de Vassouras, RJ, assim fala do café:
"o café, no Vale do Paraíba, era uma das colunas mestras da economia do Império; as outras esteiavam-se nos canaviais de Campos da Bahia e de Pernambuco. A riqueza das 3 províncias não era só o dinheiro com que elas abasteciam o Tesouro Imperial, mas, também, as elites formadas na sua opulência para as artes, a ciência, a política e que deram, nas últimas décadas do Brasil monárquico, o maior contingente para o verniz de civilização com que elas brilham na história nacional".
A primeira referência sobre a entrada de café na cidade do Rio de Janeiro consta de um almanaque manuscrito do acervo da Biblioteca Nacional que informa:
Em 1792 entraram na cidade, tanto de fora como do Recôncavo, 160 arrobas de café.
A primeira remessa para o exterior só acontece em 1800, com a saída de 13 sacas de café. Em 1808, saem 8.000 sacas. Em 1810, exportam-se, 66.000 sacas. Em 1820, já são 97.000 sacas. Em 1830, são 484.000 sacas. Em 1840 temos 3.463.000 sacas de café que dão o vigoroso impulso para Vassouras e Valença viverem o seu apogeu de quase ½ século de fausto, com um luxo e requinte inigualáveis na história do Brasil. No 2o Reinado, foram plantadas novas espécies de cafeeiros: o Bourbon, vindo da ilha do mesmo nome; o botucatú; o café amarelo; o Guatemala; o maragogipe (com as mais altas cotações da praça, mas os pés tinham uma frutificação irregular e com carga menor) e o Libéria (com rosetas muito espaçadas e poucos caroços em cada uma delas e com casca grossa e aquosa o que tornava a secagem do grão muito demorada) e, por último, o tipo montanhas azuis. De todas as espécies, a chamada crioulo, que viera da costa africana, foi sempre a favorita por ser mais resistente, de maior duração e com a produção mais abundante e, junto com a espécie Bourbon, se constituem em 90% das plantações da região, no ocaso do Império. O Cafeeiro é uma planta perene, isto é, uma vez bem tratada não precisa de plantio anual, produzindo continuamente por muitos anos e germina em vários tipos de terra, quando se evita a erosão. Em compensação, é frágil, sensível às geadas, aceita temperaturas limites de 5o a 33o, precisa de chuvas regulares, não produz imediatamente após o plantio, demora de 4 a 5 anos, necessita de muito mais capital inicial que a cana de açúcar e muita mão de obra para o seu trato.

Cronologia da implantação do café e a sociedade dos Barões do Café fluminenses.
Foi essa a rotina dos fazendeiros pioneiros da região fluminense: primeiramente, pôr a mata virgem abaixo, depois: plantar, colher, exportar. Depois, era produzir muito e despender pouco consigo mesmo e com a família, apenas o estritamente necessário, o imprescindível, e assim conseguia-se alcançar a abastança. E, então, vinha o palacete nos fundos de uma extensa fila de palmeiras imperiais, cercado de jardins, com capelão e mordomo como os barões medievais, porém, sem nunca esquecer a vida dura do passado que era sempre recordada com emoção, como nos relatos do 1o Barão do Rio das Flores, meu tio-bisavô materno. As fazendas tinham, em média, 120 alqueires, sendo o alqueire equivalente a 48.400 m2. Para os grandes proprietários as fazendas tinham, em média, de 250 a 600 alqueires e os latifundiários possuíam 2 sesmarias, ou mais, que tinham, cada uma, a área em torno de 1 légua quadrada, que equivale a 4.356 hectares. Segue uma cronologia histórica da produção cafeeira baseada em Eloy de Andrade e Gilberto de Barros Leite.
1727: o café chega no Brasil, pelas mãos do sargento Francisco de Mello Palheta, com plantações no Pará, daí para o Maranhão, donde é exportado para Portugal protegido por decreto de D. João V que apenas permite o café do Maranhão em Portugal.
1760/62: o café chega ao Rio de Janeiro pelas mãos de João Alberto de Castelo Branco que oferece algumas sementes ao Governador Geral, o Conde de Bobadella. Só 4 mudas florescem: na casa do Castelo Branco, na casa de João Hoppman, no Convento de Santa Teresa e nos Frades Barbadinhos.
1780: o café vai para a região rural, próxima à Corte, começando pelas plantações de Rezende.
1792: é o 1º registro da chegada de café à cidade do Rio de Janeiro, são 160 arrobas.
1800: são exportadas para o exterior 13 sacas de café.
1808: são exportadas 8.000 sacas de café.
1810: são exportadas 66.000 sacas de café.
1810/12: D. João VI manda trazer sementes de cafeeiro d’África e as distribui, pelas próprias mãos, aos fidalgos proprietários de terras entre eles, Conde de Nova Friburgo, Marquês de Baependy, e outros.
1817: John Luccok registra sua visita às fazendas de café no interior fluminense e Silva Telles informa sobre grandes plantações de café administradas por estrangeiros no Alto da Boa Vista (Tijuca): com 50.000 pés (Lecesne que era sócio do Duque de Luxemburgo), 40.000 pés (Moke) e 1.000 pés (Langsdorff) e mais os franceses fugidos: o príncipe de Montpeliard, conde de Gestas, Senhora de Roquefeuil, Baronesa de Rouen e Conde de Scey, que aqui chegaram após a Revolução de 1789 e a dos negros no Haití e encontraram clima e altitude boa para o café na Serra da Tijuca.
1822: é registrada a 1a geada na lavoura de café em São Paulo.
1825: o Estado de São Paulo produz 250 contos de réis de café. Porém, o grande problema paulista era a distância dos portos e o altíssimo custo do transporte da produção que equivalia a (quase 70% do valor de venda da arroba conforme registrado em 1830) o que quase inviabiliza o retorno financeiro.
1828: é o primeiro ano que a província fluminense registra uma produção de café maior que a de açúcar. São 5.122 contos de réis de café contra 3.466 contos de açúcar.
1835/36: o Estado de São Paulo registra uma produção de 1.000 contos de réis de café.
1840: são exportadas 3.463.000 sacas de café
1850: o Brasil já é o maior exportador mundial, são exportadas 213.000 toneladas de café das quais 133.000 toneladas, ou seja, 62% eram fluminenses. Com destaque para Pati do Alferes, Paraíba do Sul, Barra Mansa, Rezende, Valença e Vassouras esta, a verdadeira capital do café na época em que o Brasil econômico era o Vale Fluminense.
1852: a produção fluminense foi de 7.505.844 arrobas, ou seja, 78,69% da produção brasileira, pois juntas a produção de café mineira e a paulista somaram 2.032.027 arrobas.
1854: a 30 de Abril é inaugurado o 1º trecho ferroviário do Brasil de Mauá a Fragoso, com 14 km.
1856/1859: a produção fluminense de café neste período foi de 63.804.764 arrobas de café, contra 9.904.705 arrobas de São Paulo e de 6.333.493 arrobas de Minas Gerais, ou seja, os fluminenses, sozinhos, produziram 4 vezes mais que São Paulo e Minas Gerais juntos !!!!!
O apogeu da produção cafeeira fluminense foi de 1830 a 1880 e, nesses 50 anos, equivaleu em média a 70% da produção brasileira que equivalia a 50% do total das exportações do Império e equivalentes a 50% da produção mundial. Essa produção gerou uma extraordinária riqueza para os fazendeiros fluminenses que souberam aproveitá-la muito bem, construindo suas casas, como palácios rurais, e mantendo um trem de vida onde, o luxo, o requinte e o fausto eram os apanágios corriqueiros desses ricos fazendeiros que são a grande maioria dos Barões do Café, agraciados por D. Pedro II no 2o Reinado, (1840-1889). São eles que financiam a guerra contra o Paraguai de 1864 a 1870 com cerca de 40.000 brasileiros mortos e são o esteio do Império se constituindo numa aristocracia genuinamente rural, de caráter imperial. Eles são conseqüência direta do estímulo premonitório de D. João VI, distribuindo as sementes que mandara vir d'África e da facilidade com que a planta se desenvolve, inicialmente, nas terras de Rezende e daí, para o Vale Fluminense.
1852-1857: a exportação do café fluminense é 92% do total exportado pelo Brasil, enquanto que Santos exporta apenas 6%.
Oliveira Viana assim descreve o patriciado fluminense: Não tinha esse, o fluminense, nem o orgulho do paulista, nem o democratismo do mineiro. Era mais fino, mais polido, mais socialmente culto pela proximidade, convívio e hegemonia da Corte, cuja ação o absorve. O polimento urbano lhe corrigiu a rusticidade e pela finura, pelo senso do meio-termo, acabou por desempenhar, no Sul, o papel dos atenienses da política e das letras.
A fazenda de café fora indispensável àquele resultado de elegância espiritual e polimento urbano. Dos meados dos oitocentos, sobressaem já os proprietários enriquecidos pela lavoura cafeeira que constroem palacetes cercados por jardins, com prados à entrada, com pequenos lagos com renques de soberbas palmeiras imperiais que conduziam os visitantes à porta do solar.
A rotina da vida numa fazenda de café começava cedo, antes das 5 horas, acordando as pessoas e predispondo-as para a jornada diária. As festas são memoráveis. Delas participam convidados da corte e vizinhos, também fazendeiros proprietários. Os banquetes tinham uma vintena de pratos diferentes, com vinhos raros, importados da França, que eram guardados nas adegas das casas, algumas famosas como a do Visconde do Rio Preto, em sua imponente fazenda Flores do Paraíso, a jóia de Rio das Flores que é emblemática como referência histórica para o período do fausto cafeeiro da região fluminense, conforme esta descrição:
Casa da Fazenda Flores do Paraíso (1845) em Rio das Flores, RJ.
 
Em uma rua de 400 metros, ladeada por palmeiras imperiais que se abrem no final, em gracioso semicírculo encontra-se o palacete com a placidez de um solar com uma extensa frontaria tendo no centro 3 portas e da cada lado uma ala com 6 janelas cada uma. Dentro resplandece o luxo, no estilo do mobiliário, na pureza dos cristais e dos espelhos, nas finas tapeçarias, na sobriedade dos damascos, nas pratarias lavradas. Galerias de quadros de valor, museu de raridades, tudo continha a Paraíso do Visconde. Há no térreo: 2 salões, de bilhar e de visitas, 4 quartos, escritório, biblioteca, sala de almoço, copa, salão de costura, capela e várias dependências: banheiros, dispensa e cozinha. No sobrado, salão de recepções, alcançado por majestosa escada (cujos lados no térreo são ornamentados por dois negros de bronze, de tamanho natural, sustentando nas mãos ricos candelabros) e que bifurca para a esquerda e direita, há ainda, sala de armas, sala de jantar com enorme painel pintado por Villarongo, vasto dormitório, alcova, 20 quartos para hóspedes e vários banheiros. Na fazenda trabalhavam 500 escravos e havia uma banda de música com 50 figuras. A casa começou a ser construída em 1845 e tinha iluminação a gás que só chegou a São Paulo em 1870, seu engenho para beneficiar o café tinha equipamento Lindgerwood. Domingos Custódio Guimarães, nascido em 1800, 1o Barão de Rio Preto a 6/12/1854 e Visconde do Rio Preto a 14/3/1867, é um perfeito exemplo do grand seigneur do patriciado fluminense, ele ficara riquíssimo no comércio da carne mineira para a cidade do Rio de Janeiro com o seu sócio João Francisco de Mesquita Visconde e, depois, Marquês de Bonfim em 1872, (ele foi um dos signatários, quando ainda era Visconde, do atestado para Pedro II recomendando João Gualberto de Carvalho, meu 4º avô, a receber o título de 1o Barão de Cajurú, em 1860). Desfeita a sociedade com o Marquês de Bonfim, Domingos Custódio Guimarães resolveu investir em terras para o plantio de café.
Para tal mandou o seu sobrinho, Joaquim Custódio Guimarães, procurar fazendas e foram compradas 11 fazendas: Sta. Quitéria, Montacavalo, Mirante, São Bento, Sta. Genoveva, Jequitibá, Criméia, São Leandro, São Policarpo, União, São José, e duas mais, compradas de João Pedro Maynard (que fora companheiro de Dom Pedro I e Dom Miguel, nas farras da juventude), a Loanda e a Flores do Paraíso, que foi comprada por indicação de Domingos Antonio Ribeiro do Valle, (futuro sogro de Joaquim Custódio Guimarães) que é filho de João Ribeiro do Valle, o qual é irmão do meu 6o avô, Felisberto Ribeiro do Valle, ambos netos de André do Valle Ribeiro. As fazendas do Visconde produziam 60.000 arrobas de café o que daria com a saca vendida ao preço médio de R$ 230,00 e com o US$ a R$ 2,00, um resultado anual de US$ 1.725.000,00 que era uma ótima fortuna para o custo de vida da época!. Com a morte do Visconde a 7/7/1868, que deixa uma fortuna de 4.000 contos de réis, (1 conto de réis (1.000$000) comprava 1 kg. de ouro, equivalente a R$ 200 milhões, considerando a grama de ouro a R$ 50,00), as fazendas vão para seu filho, o 2o Barão de Rio Preto (23/9/1874) que é casado com uma filha do marquês de Bonfim e que mantém a Paraíso até sua morte em 1876. Seu filho, também Domingos, a mantém até 1895, quando a vende para o sogro, o Barão d'Aliança, (sobrinho do 1o Barão do Rio das Flores, meu tio bisavô, pois é cunhado de João Antonio de Avellar e Almeida e Silva, meu bisavô), que a mantém até 1912, quando é vendida pelo Barão d’Aliança ao Cel. Alexandre Belfort de Arantes que é irmão do Visconde de Arantes e é neto de Antonio Belfort de Arantes, 1o Barão de Cabo Verde (ele, por sua vez, é sobrinho de Manoel Rufino de Arantes, meu 4o avô, e de sua mulher Ana Joaquina de Carvalho que é irmã de João Gualberto de Carvalho, 1o Barão de Cajurú). A mulher do 1o Barão de Cabo Verde é Maria Custódia Ribeiro do Valle, que é irmã de Ana Inácia Ribeiro do Valle, casada com, João Gualberto de Carvalho, 1os Barões de Cajurú, meus 4os avós. Quem cuidou da fazenda Paraíso foi o filho de Alexandre, o major Galileu Belfort de Arantes, cujos descendentes são os atuais proprietários. O Visconde de Arantes é casado com uma filha dos 1os Barões de Cajurú, sua prima-irmã o que os torna meus tios-trisavós. Temos cá o grand finalle desta secular teia/trama familiar construída desde o 1o quartel do século XIX, com a junção do sangue Guimarães, do sangue Carvalho, do sangue Ribeiro do Valle, do sangue Avellar e Almeida e do sangue Arantes que, através de trinetos do 1o Barão de Cabo Verde (que é meu tio-tetravô), são os atuais proprietários da fazenda Paraíso, agora de gado leiteiro e não mais do café que foi o grande articulista histórico/social/financeiro da glória desta fazenda cuja casa solarenga, imponente, elegante e requintada, é considerada por Taunay (neto do Barão de Vassouras) e o Conde d’Eu:
o mais belo palacete rural brasileiro, a Rainha das Fazendas.
1870: a partir deste ano as coisas começam, lentamente, a mudar na província fluminense. A lavoura ainda tem produção expressiva tanto é que, de 1870 a 1881, os fluminenses produzem 1.398.990.752 de quilos de café o que é 1,7 vez mais que os 840.115.553 quilos produzidos por São Paulo, Minas, Espírito Santo e Bahia juntos, no mesmo período, ou seja, 62,47% da produção brasileira total que foi de 2.239.106.303 quilos.
1867-1872: a exportação do café fluminense é 81% do total exportado pelo Brasil.
1872: Rezende produz 500.000 arrobas de café, (cada arroba = 14,7 kg.).
1880: São Paulo tem a produção de café consolidada e dando lucro. O trabalho é apoiado no braço do imigrante que veio num total de 33.310 imigrantes entre 1822 a 1887 dos quais, 28.840 italianos que se espalham pelo Estado de São Paulo.
1886: é o 1o ano que a produção de café em São Paulo supera a produção de açúcar; o que acontecera em 1828 no Rio, 58 anos antes!!
1890: o Encilhamento causado por Rui Barbosa e sua enorme desordem financeira, atingem em cheio o que restava dos antigos fazendeiros que, já muito endividados e com terras cansadas que nada valem, ficam nas mãos dos bancos e agiotas que adjudicam as terras e o café cede espaço para o gado leiteiro vindo de Minas.
1893: os primeiros rolos de arame farpado chegam a Vassouras por conta do gado dos mineiros que usam as terras nuas para pastagem e o pasto invade os cafezais.
1894: a produção fluminense de café despenca para 20% da produção brasileira. Diante dessa feroz decadência fluminense o desgosto dos proprietários, novos e antigos, teve outra conseqüência, mais prejudicial à lavoura: os fazendeiros do Império moravam em suas fazendas, nelas procuravam ter todo conforto e vangloriavam-se da sua profissão; posteriormente não. Tudo isso, na República, acaba e o novo fazendeiro, filho ou neto do pioneiro, prefere viver no conforto das cidades entregando muitas vezes a prepostos, sem qualificação ou interesse, a tarefa de administrar os colonos e as terras cansadas e já muito desvalorizadas.
1899: há uma 2ª invasão mineira atrás de terras baratas para pastagem do gado de corte e leite e o êxodo das famílias dos antigos fazendeiros de café segue firme para outras regiões que possam dar oportunidades de sobrevivência.
Assim desapareceram os antigos predicados que caracterizavam os velhos fazendeiros: a rija resistência, a tenacidade, a ambição de um título nobiliárquico; o amor apaixonado àquele pedaço de terra. Os fazendeiros do Império tinham orgulho de sua profissão, recebida como um legado que deviam honrar, como seus pais e seus avós fizeram percorrendo a cavalo, com orgulho, prazer e alegria as suas terras. A decadência expulsa do lugar os proprietários, eles queimam suas fazendas de terras exaustas por qualquer preço aviltante e as famílias se dispersam e, com o passar do tempo, esmaece e acaba a memória deste passado, o conhecimento desta época de fausto e requinte, que teve uma qualidade de luxo e requinte sem igual em qualquer outra província brasileira nos 67 anos do Império.
Nesta 1ª crise do café no Brasil, que voltará em 1929 tão devastadora como, nas 2 crises se percebe como o fato gerador a mudança do cenário sócio econômico da elite do país, no caso desta de 1889 a mudança do Império escravocrata para a República e no caso de 1929 será a mudança do que restava do sistema agrário para o sistema industrial/urbano.
Diz Viçoso Jardim: A situação Fluminense teve a alimentar-lhe o berço, o café; cresceu com ele e é ainda no café que se nutre o seu progresso.
E há o dito popular: Si estiveres morto, pega o teu porco. Si estiveres quebrado, pega o teu gado. Mas com o café, não tenho fé.
1920 > e a Crise de 1929.
A produção fluminense de café some para apenas 3,47% da produção brasileira. A produção paulista chega à média de 60.043.000 arrobas/ano no período de 1928/32, entretanto, o crash da Bolsa de Nova Iorque em 1929 devasta a elite cafeeira paulista que queima as safras sem compradores para evitar o custo da estocagem de um produto que nada mais valia e o fantasma da crise de 1889 ressurge com ferocidade e devastação destruindo, novamente, as fortunas, as famílias e o cenário social.

Conclusão.
Há uma correspondência, inequívoca, entre a força da província fluminense com o seu poderio econômico alicerçado no café e a força do Império Brasileiro dos Bragança, pois enquanto a província foi poderosa o Império brilhou e quando a província enfraquece o Império acaba. É a 1ª Crise do café em terras fluminenses, provocada pela exaustão das terras e pela abolição da escravidão, que provoca a ruptura do Império e leva à República em 1889.
É a 1ª Crise do café no Brasil nas terras fluminenses, provocada pela exaustão das terras e pela abolição da escravidão, que provoca a ruptura do Império e leva à República em 1889. Nesse caso não houve problema de superprodução, como a crise paulista de 1929, mas uma conseqüência do modelo de produção uma vez que houve uma total miopia do problema técnico por esses fazendeiros, pois eles não recompunham a força da terra exaurida pela cultura predatória sem adubação e, para aumentar a produção, plantavam sem nenhum cuidado de respeitar as curvas de nível e desmatavam ferozmente a mata virgem para ampliar as áreas de plantio alterando o microclima da região o que destruía os morros de terra nua após as chuvas, além disso os fazendeiros se prenderam, irresponsavelmente, ao valor do escravo como reserva de ativo financeiro seguro e, num instante, ficam sem os 2 ativos, pois os escravos são libertados sem indenização do estado e as terras cansadas e exauridas não tem mais nenhum valor comercial e, conseqüentemente, as famílias dos barões do café fluminense conhecem o desespero e a miséria que destrói o passado majestoso da região.
Hoje a região fluminense de Vassouras e Valença é uma sombra do que foi, não mais se avistam os extensos cafezais, que chegaram a ter 500 milhões de pés plantados, os palacetes das cidades estão em ruínas e as poucas soberbas sedes de fazenda que resistiram à decadência e aos cupins estão, todas, nas mãos de novos proprietários que, em alguns casos, fizeram intervenções, restaurando parte do esplendor do passado, porém em outros casos, nada foi feito e as sedes estão em plena decadência, arfando nos estertores finais de uma quase centenária trajetória que conheceu um formidável tempo de prestígio e glória para a sociedade agrária brasileira. O governo estadual deveria valorizar essa região cujo potencial de atração é imenso e transformá-la em uma área de preservação histórica, e vigoroso pólo turístico-cultural, para o turista estrangeiro, principalmente o europeu, que já conhece e admira essas casas solarengas desde o século XIX nesta região que pode ser chamada, sem exagero, de Vale do Loire Brasileiro.
A 24/12/1984, Vassouras foi declarada, por força de lei, em Estância Turística. Entretanto o café abandonou totalmente a paisagem rural fluminense e não mais se tem o que o paulista Martinho Prado diz, ao expressar muito bem o risco da lavoura do café:
lavoura essa que, se dava a casaca tirava, também, a camisa.

Fontes pesquisadas para estruturar este trabalho:
O Vale do Paraíba, Eloy de Andrade, Real Gráfica, Rio de Janeiro, 1989. Essa fonte foi a coluna mestra desse trabalho, tanto pelas suas importantes informações técnicas, quanto pela preciosa sensibilidade nostálgica com que retrata o passar do tempo na província fluminense e sua decadência inexorável que destruiu o passado das famílias dos Barões do Café fluminenses, que se espalharam pelo Brasil perderam a memória de seu passado e desconhecem sua história e importância no tempo do Império.
História do Café no Brasil, Afonso de E. Taunay, neto do Barão de Vassouras.
História de Valença, 1803-1924, Luís Damasceno Ferreira, 1925.
Anuário Genealógico Brasileiro, Vol. IX, (Penúltimo), 1947.
O Homem e a Serra, Alberto Ribeiro Lamego, IBGE, 1950.
Titulares do Império, Carlos Rheingantz, Rio de Janeiro, 1960.
A Cidade e o Planalto, Gilberto Leite de Barros, Martins, 1967, I Tomo, em especial as pgs: 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16,17, 19, 21, 22, 23, 27, 28, 29, 35, 36, 37, 38, 40, 41, 44, 45, 49, 53, 54, 57, 60, 82, 83, 85, 91, 92, 93, 94, 95, 96, 123, 124, 164, 168, 169, 173, 174, 180, 186, 188, 191, 193, 196.
Expansão Cafeeira e Origens da Industria no Brasil, Sérgio Silva, 6ª Edição, 1985, pg. 50.
Café e Ferrovias, Odilon Nogueira de Matos, 4ª Edição, 1990, pgs. 52/53.
As Barbas do Imperador, Lillian Schwarcz, São Paulo, 1996.
Ensaio Geral, 500 Anos de Brasil, Heródoto Barbero, Bruna Cantele, São Paulo, 1999.
500 Anos de Sabor, Eda Romio, São Paulo, 2000.
Barões e Escravos do Café, Sonia Sant´Anna, 2001.
Brasil: uma História, Eduardo Bueno, Atica, 2003.
O Jornal, Júlio do Valle Bittencourt, Rio de Janeiro, 15/10/1927.
E o Vale era o escravo, Eduardo Salles, Civilização Brasileira, 2008.
O Vale do Paraíba e a arquitetura do Café, Augusto C. da Silva Telles, Capivara, 2006.
Marcos Vieira da Cunha, fonte primária, informou as datas de nascimento e morte dos 1os Barões do Rio das Flores e dos filhos Manoel, Lindolpho, Mizael, e de Emiliana Garcia, tiradas dos túmulos, restaurados por ele, no cemitério de Rio das Flores, a 18 kms de Valença, 1980.
Pedro Vianna Born, fonte primária, informou sobre os franco-caribenhos e seu comércio de café no Rio de Janeiro.
VEJA, 13/10/04, pg. 104, Editora ABRIL.
National Geographic, January, 2005, Why we love Caffeine, pgs 3 a 32.
Tragédia em Wall Street, Aventuras na História, Julho 2008, Editora Abril.
O Vale do Paraíba e a Arquitetura do Café, Augusto C. da Silva Telles, Rio de Janeiro, Capivara, 2006.
# VASSOURAS a Brazilian Coffee County, 1850-1900 StanleyStein, Harvard University, 1957:
retrata de maneira clara e objetiva o começo, formação e início da decadência de Vassouras, quando terminam as matas virgens para derrubar e plantar e a rotina míope dos vassourenses que não adubam ou cuidam de proteger a terra onde plantam; e eu nunca tinha lido sobre a confusão e decadência que causou a implantação da estrada de ferro (D. Pedro II) para as vendas e comércio da estrada de terra (Estrada da Polícia). Também me impressionou a mudança das tropas de mulas (cada uma com 9 arroubas) que custavam 33%!!!!!!!!! do que valia o café para transportá-lo até o Rio e quando chega o trem que facilita tudo e fica rei o carro de boi que carregava 100 arroubas até as estações e derruba o custo do transporte e a perda de café e mulas nos constantes acidentes anteriores e Vassouras fica riquíssima e muito sofisticada no seu modo de vida.
Pg 226 os escravos entre 1857-58 valem 73% do valor da fazenda.
Pg 246 em 1882 o escravo é o que vale nas fazendas, pois tem liquidez e as terras estão exauridas.
Pg 247 as propriedades em 1888 desvalorizam 10 vezes em relação a 1860 e o escravo tem valor zero na composição do valor das fazendas.
Pg 251 estima m 500.000 escravos libertos em maio/1888.
pg 260 estima em 500 mil contos de réis a necessidade de dinheiro.
Pg 286, 287, 288: o pasto inade os cafezais e o êxodo das famílias dos antigos fazendeiros segue firme.
Pg 293
em 1825 > 1US$ dolar = 1 conto de reis e passa a equivaler em:
1850 > 0,58US$ dólar = 0,58 conto de reis
1900 > 0,19US$ dólar = 0,19 conto de reis
Pg 294 estima em 17.319.556 hab. a população do Brasil em 1900.
Pg 295 estima em 1887 > a existência de 637.602 escravos


https://www.cooxupe.com.br/cafe/ produção histórica.
 

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