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Entrevista com o sociólogo Sergio Amadeu

Para começar com um balanço geral, quais foram os assuntos mais debatidos neste ano na Campus Party?
Tinha muita coisa nova, mas acredito que as questões ligadas às possibilidades de exercer a cidadania por meio da tecnologia tiveram destaque. Estávamos bem focados nesse ponto. Falamos sobre o governo 2.0, o civic hacking... E todas as ideias para fortalecimento da cidadania, diante dos governos ou não, estimularam muita discussão.

Começando então a traduzir esse universo para o leigo... O que é o governo 2.0?
Até agora, nos chamados governos 1.0, quando se fala em transparência, em mostrar os números do governo para o cidadão, o que na verdade se tem é que o governo edita e escolhe os dados que vai apresentar, coloca na internet e o cidadão que quiser pode ir lá no portal e olhar essas informações. Certo, já é um avanço. Com as novas tecnologias e a ampliação da capacidade de armazenamento, o que nós queremos é o acesso aos bancos de dados para que possamos fazer os cruzamentos e a partir daí entendermos o que se passa no governo. São dados públicos e podemos, portanto, exigir que eles estejam à disposição do cidadão. Trata-se, então, da ampliação da transparência e da exigência de transparência por parte da população.

O acesso e o cruzamento de dados a que você se refere já são tarefas possíveis de serem concretizadas atualmente, por qualquer cidadão que tenha um computador com acesso à internet?
Sim, desde que o banco de dados seja aberto e o internauta tenha os softwares para fazer o data mining [ou mineração de dados, é um processo para grandes quantidades de dados e capaz de encontrar padrões ou relações importantes entre eles]. Mas, sim, já é totalmente factível. Essa mineração pode levar a conclusões que a gente nem imagina e abastecer a sociedade com informações que aumentariam o controle do cidadão em relação ao seu governo. E veja, não necessariamente a vontade do usuário precisa ser achar corrupção, ou desvios de verba. Os Tribunais de Contas trabalham por amostragem, auditam uma parcela dos dados apresentados pelos municípios e, se aquela informação tiver problemas, o tribunal age; se não, passa para o próximo. Os cidadãos, auxiliados pelos softwares certos, podem ajudar a computar a totalidade dos números. O órgão público sozinho não teria capacidade para processar tudo, mas uma rede de cidadãos conectados consegue dar conta. E, novamente, diante de informações bem precisas, a força do cidadão e o controle sobre o poder público aumentam bastante. A gente chama isso de civic hacking.

Parece que o que há de novo nessas práticas é a colaboração em rede, uma experiência de cidadania na qual a pessoa não precisa nem sair de casa. Isso certamente encanta e atrai, não?
A palavra chave quando se fala em rede de computadores é colaboração. Se o cidadão pode colaborar de casa, sem ter trabalho, só deixando seu computador ligado durante a madrugada, ele topa. E assim, o debate gira em torno da exigência de transparência, da colaboração e de uma cidadania participativa pautada em outras bases.

Será que os usuários da internet têm essa consciência de que podem deixar de ser o pacato cidadão para ter uma participação mais ativa? A sensação que se tem hoje é que as pessoas não querem muito se engajar em nada...
Olha, quem pensa a internet, quem pensa os softwares livres, quem pensa as redes sociais, já pensa com a cabeça da colaboração. Porque a grande mudança não é tecnológica, mas cultural. A rede mundial nasceu livre, sem dono, sem monopólios. As forças são equilibradas e isso ainda é novo na nossa sociedade. A mentalidade muda e a tecnologia serve de suporte para esse novo pensar. A gente acredita que à medida que as possibilidades de colaborar vão sendo divulgadas e que as pessoas se dão conta de que a grande mudança cultural não dá nenhum trabalho e tem um custo muito baixo, elas aderem tranquilamente.

Já tem gente que programa o computador para ajudar a processar dados de pesquisas científicas até de outros países...
Os dez sites mais acessados do mundo são os colaborativos. O Facebook, o Orkut, o Twitter, o Wikipedia... em todos eles, o conteúdo quem faz é o internauta. O blogger, que é uma central de blogs, já lidera a internet. E se a gente olhar para Brasil, a gente já é a segunda comunidade no Twitter, fomos a primeira comunidade no Orkut durante bastante tempo e hoje estamos entre as maiores populações do Facebook e do Twitter. Então é visível que os brasileiros gostam de se relacionar, de trocar, de dividir. É cultural. Não dá para esquecer a brutal exclusão digital, claro, mas sempre que existe a possibilidade de entrar na rede, os brasileiros se ligam nos sites colaborativos. Com a ciência não é diferente. Do mesmo jeito que eu posso programar meu computador para toda vez que estiver inativo ajudar a processar os dados do Tribunal de Contas, posso programá-lo para colaborar com os números de pesquisas.

Você falou no início da entrevista sobre os softwares livres. Pode explicar como essa ideia se relaciona com a mudança cultural? E poderia falar também sobre as razões que levam o Brasil a se consolidar como uma das lideranças nesse segmento?
Uma boa parcela dos participantes da Campus Party vem para aprender mais e discutir sobre os softwares livres. O que nós defendemos é a liberdade do conhecimento. Essa comunidade enorme acredita que o conhecimento não pode ter donos. O Brasil tem despontado nesse cenário porque aqui, ao contrário do acontece em outros países, nós somos muito claros em relação ao que está em jogo. Trata-se então de assumir que a defesa dos programas livres é sim uma questão política, cultural e ideológica. Outras comunidades não são assim transparentes, por isso assumimos uma parcela da liderança. O que a gente defende então? Que o conhecimento algorítmico, esse que determina como são os softwares, seja livre e não bloqueado. Veja que a discussão não é se eles devem ser gratuitos ou pagos. O foco é o livre acesso aos códigos que compõem os programas.

E a Campus Party também mergulhou nessa discussão, não é?
Tivemos palestras e oficinas variadas com esse tema. Os criadores do Ginga, o middleware aberto da TV Digital brasileira debateram; o criador do creative commons [projeto que disponibiliza licenças para a reprodução de obras intelectuais na web] também falou; a comunidade pôde participar de muitas oficinas que relacionavam redes sociais, robótica, produção de vídeos e animações em 3D, tudo com softwares livres. E em relação aos direitos dos internautas? Houve discussão sobre o marco civil da internet?
Nas duas primeiras edições nós resistimos muito a discutir o projeto do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que regula deveres e direitos no uso da internet e tipifica os crimes que o internauta pode cometer. Mas este ano, no espaço Campus Forum, essa foi a primeira discussão. Existe um olhar que tende a criminalizar tudo que é feito de uma maneira diferente na internet daquela que é mais comum na sociedade presencial. O nó está em falar das violações contra a navegação sem discutir primeiro os direitos mais básicos do cidadão. Todo internauta tem o direito de usar a internet sem ser espionado ou vigiado, porque essa é a natureza da rede. Todos têm também o direito de não ter sua máquina invadida por mensagens, imagens, textos que ele não pediu. A discussão está, portanto, no peso e na criminalização que vem se dando para as ações mais corriqueiras do cidadão que usa a internet.

É o excesso de liberdade do internauta que incomoda tanto?
É! Nunca antes nenhum sistema de comunicação nasceu pautado no compartilhamento e na colaboração como foi com a internet. Tudo que veio depois – e que vingou – está pautado nessa natureza. Os protocolos de controle da rede não têm dono. A quem você pede autorização para fazer algo na internet? A ninguém. Embora seja uma rede cibernética e, portanto, controlada, ela é essencialmente livre. Brigamos muito para que continue assim, com uma neutralidade dos mandos. Cada etapa da internet tem donos diferentes e o cidadão acessa esse oceano informacional sempre que quiser, livremente. Por isso o marco civil da internet não combina com a rede, com a ideia da rede. Ele procura controlar, enquadrar a navegação e as ações ligadas à internet e isso precisa ser bem explicado e discutido para a população.

Falamos de fortalecimento da cidadania, de colaboração, de liberdade. Como tudo isso se liga à educação, que foi também uma das bandeiras da Campus Party 2010?
A primeira pergunta que fizemos foi exatamente essa: como fica a educação nesse cenário todo de acesso à informática, acesso à rede, gosto pelas comunidades virtuais, acesso livre a programas, códigos? Para responder a pergunta, convidamos educadores que lidam diretamente com computadores e internet nas suas práticas para contar o que acontecia na sala de aula deles. E o que salta aos olhos é a postura do professor. O que faz diferença nas histórias que ouvimos, nos casos que contaram aqui, é o professor.

E como deve se preparar esse professor para dar conta dessa nova realidade?
É mesmo uma nova realidade, tecnológica, cultural e até – como eu já disse – ideológica. A primeira providência é estar aberto para conhecer tudo isso e, depois, levar isso para a sua sala de aula. E quando isso acontece, esse professor já deixou de ser o que era no passado e já se aproximou muito mais da função de condutor, de orientador. Por isso ele não é dispensável, porque com seus conhecimentos pedagógicos todos, ele pode encaminhar as informações e as experiências que os alunos vão encontrar na internet, no uso do computador e tal. E a outra coisa é a abertura para criar o novo, ele mesmo e seus alunos. Aliás, a experiência que a gente tem é que os estudantes adoram isso. Aqui na Campus Party, desafiamos os alunos a montar um robô, por exemplo. Eles quebram a cabeça, são orientados por um professor e ao final do processo eles aprenderam conceitos matemáticos complicados de uma maneira simples e inesquecível. Ninguém aprende nada só porque tem que aprender. A sociedade moderna separou conhecimento de entretenimento e o resultado é que conhecer passou a ser uma coisa enfadonha. Aqui nós somos pós-modernos, somos da sociedade da informação. Então, para nós, conhecer, aprender, trocar e colaborar é uma diversão. O professor que visita o encontro sai maravilhado de ver os jovens que passam a madrugada acordados, festejando, chegarem às 9 horas para aprender a linguagem Lua, ou um novo código aberto para programação de softwares. A gente reuniu o que também haviam separado no passado: arte e ciência. E aprender assim é muito mais fácil e gostoso, eles têm vontade de aprender e, melhor ainda, de criar.


 

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