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Brasil Império

Levante Cuiabano

* William Serdeira Garcia

“Embarca bicudo embarca
Embarca, canalha vil
Que os brasileiros não querem
Bicudos no seu Brasil”

(O Tigre Cuiabano – Rubens de Mendonça).

Um Brasil governado por brasileiros

Com a morte de Dom João VI, em Portugal, seu sucessor imediato é Dom Pedro I, que estava como imperador no Brasil. Logo, esse vendo o cenário político em que se encontrava a Europa e devido à pressão sofrida contra ele no Brasil, faz com que Dom Pedro I volte para Portugal.

  Como sucessor ao trono, Dom Pedro I deixa seu filho, o príncipe Dom Pedro de Alcântara. Porém, o jovem príncipe tinha apenas sete anos de idade, estando incapaz de governar o Brasil sozinho. Temos a partir daí o período regencial, que vai de 1831 a 1840. Alguns autores afirmam que foi a partir deste momento que o Brasil foi governado realmente por brasileiros.

A formação dos grupos políticos

  Com o início desse período, dois blocos políticos tiveram maior destaque no cenário nacional, os Liberais e os Conservadores. Os liberais, por sua vez, eram divididos em dois blocos, moderados e exaltados.

Os moderados desejavam a manutenção da ordem pública, a preservação do sistema monárquico e o zelo pela Constituição imperial. Já os exaltados queriam que todos os estrangeiros e, principalmente, os portugueses chamados de adotivos, fossem mandados para fora do país e desejavam também a proclamação da república.

  Em contra partido surge um partido chamado primeiramente de Caramuru, que mais tarde ficaria conhecido como conservador. Esse partido almejava a volta de Dom Pedro I ao Brasil, assim como o retorno à condição de colônia.

  A historiadora Elizabeth Madureira Siqueira afirma, em sua tese de mestrado apresentada na USP, no ano de 1992, que foi a partir do embate entre esses dois grupos que eclodem as rebeliões no período regencial.

A união de dois grupos

  Surge em 1833 a Sociedade dos Zelosos da Independência, sociedade formada por pessoas da elite nativa cuiabana, e que tinha o intuito de tomar o poder existente na época. Seus principais membros eram pessoas de um alto grau de projeção social, na sua maior parte comerciantes, profissionais liberais ou militares de carreira.

  Um dos personagens principais dessa facção é João Poupino Caldas, comerciante, militar de carreira, proprietário de inúmeros imóveis urbanos em Cuiabá, Comandante das Armas da Província (1829), Tesoureiro Geral da Província (1833/34), e Vice-Presidente da mesma em 1834.

  Nesse período quem governava a Província era Antonio Corrêa da Costa, seu partido era o Caramuru (conservador), que defendia os privilégios aos estrangeiros em preferência os grandes comerciantes.

  Sabendo dos planos da Sociedade dos Zelosos da Independência, Antônio Corrêa da Costa alega problemas de saúde e se afasta temporariamente do governo, deixando em seu lugar seu genro, André Gaudie Ley, que era até então Vice-Presidente da Província.

  Após quatro meses, Corrêa da Costa retorna ao seu cargo, porém logo em seguida o abandona definitivamente, deixando assim nas mãos do Conselho de Governo, que era composto por pessoas da elite cuiabana que ficou encarregada do destino da Província.

  Dentro desse conselho está João Poupino Caldas, figura extremamente ativa dentro da Zelosa da Independência e um grande articulador para que se fizesse a revolta. Temendo e buscando formas para retardar, ou até mesmo impedir a revolta, o Conselho o nomeia como responsável pelo destino político-administrativo da Província.

A noite do levante

  A ala dos Liberais Radicais não via como suficiente a ascensão de Poupino Caldas, pois para eles o necessário seria a expulsão ou até mesmo a morte tanto dos estrangeiros quanto dos portugueses adotivos menores de 60 anos, que juntos formavam a elite comercial.

  Então, na noite do dia 30 de maio de 1834, chefiada pela ala dos liberais radicais reunidos no Campo do Ourique (hoje Praça Moreira Cabral), eclode o que ficaria conhecida como a Rusga cuiabana.

  Os rusguentos, como eram chamadas as pessoas que faziam parte da rusga, tomam o Quartel dos Guardas Municipais. De tal modo estava sob o domínio dos revoltosos as duas formas de se enfrentar a revolta, a Guarda Nacional e a Municipal.

  Na primeira noite os revoltosos arrombam um grande numero de casas comerciais, saqueando-as e matando vários bicudos, segundo Elizabeth Madureira Siqueira, no livro “História de Mato-Grosso - Da ancestralidade aos dias atuais”, Publicado em 2002.

  O termo ‘Bicudo’ era dado pejorativamente aos portugueses adotivos e a vários estrangeiros ou até mesmo a alguns brasileiros. Vendo o total descontrole do movimento, Poupino Caldas, que era contrário ao uso de armas na revolta, sai às ruas junto do bispo Dom José Antônio dos Reis para tentar impedir tais atos de violência. Apesar disso, a atitude é inútil e serve apenas para que Poupino Caldas seja considerado um traidor pelos rusguentos.

  Visconde de Taunay, em sua obra: “A cidade de Mato-Grosso”, escreve em um dos trechos um relato dramático sobre a noite de 30 de maio de 1834.

  “Era tarde!... pois dentro de pouco se consumara a nefanda obra, ficando mortos, segundo uns, 400 portugueses, senão mais, segundo outros, 200 a 300, em todo o caso acima de 100.”

  Mesmo contrário a forma que a revolta foi dada pela Zelosa da Independência, Poupino Caldas demora em torno de três meses para informar a Regência sobre a revolta, ficando assim Cuiabá governada por ele e pelos revoltosos durante esse período.

Um homem em cima do muro

  Como já citado anteriormente, Poupino Caldas fazia parte da ala dos Liberais Moderados, dentro da Zelosa da Independência e não queria o uso da violência para a tomada do poder, ainda mais devido ao motivo de sua ascensão ao poder na província poucos dias antes da revolta.

  Ao não informar rapidamente a regência sobre a revolta em Cuiabá, Poupino deixa claro o seu posicionamento favorável diante dos fatos acontecidos, mas, em certo momento, não suportando mais o estado que se encontrava Cuiabá, ele informa a regência de tal situação. Portanto, no mês de setembro do mesmo ano da revolta, chega à cidade Antônio Pedro de Alencastro, nomeado Presidente da Província pela Regência.

  Logo se instaura em Cuiabá um período de repressão aos integrantes da revolta e, como braço direito de Alencastro, temos Poupino, integrante até o momento da revolta da Zelosa da Independência e agora “ajudante” da repressão. Tal ato somente fez aumentar a indignação dos seus antigos companheiros da facção.

Com a ajuda de Poupino são presos, na noite do dia 30 de outubro, os chamados ‘cabeças da revolta’, que segundo Rubens de Mendonça, em seu livro, “O Tigre de Cuiabá”, são:

• Pascoal Domingues de Miranda
• Braz Pereira Mendes
• José Jacinto de Carvalho
• Bento Franco de Camargo
• José Alves Ribeiro • Euzébio Luis de Brito
• Manoel do Nascimento
• Antônio F. Mendes

  Esses chamados ‘cabeças’ foram mandados via fluvial para o Rio de Janeiro, onde seriam julgados pelo Supremo Tribunal de Justiça pela participação efetiva na revolta. Porém, esse tribunal se diz incompetente para julgar tal acontecimento e os manda de volta para Cuiabá.

  Todo esse processo dura em torno de dois anos, o suficiente para que a facção liberal exaltada se reorganizasse e articulasse um trabalho político para a retirada de Antônio Pedro de Alencastro da Presidência da Província, o que de fato acontece no dia 1 de dezembro de 1836, com a alegação da Regência de que a bem do serviço público isso era necessário.

  Nesse momento a facção possui um novo líder, Jerônimo Joaquim Nunes, que assume o poder político da Província por conta do apoio dado pelo novo presidente, o Jurista José Antônio Pimenta Bueno. Tais acontecimentos enfraquecem o prestigio político de Poupino Caldas, o que o leva a querer partir de Cuiabá, por vontade própria e, também, por ordens dadas por Pimenta Bueno logo após sua posse.

  Por outro lado, quando Poupino Caldas se prepara para embarcar no dia 9 de maio de 1837, com destino a Goiás e depois para o Rio de Janeiro, como ordenara Pimenta Bueno, eis que acontece a vingança final dos integrantes da Zelosa da Independência contra seu aliado e depois traidor Poupino Caldas.

  “Vinha Poupino nas vistas de despedida que estava fazendo, de chapéu de Chile e botas, aliás armado, como sempre andava. Sendo o dia de festividade religiosa, segundo uns do Espírito Santo, o estrondear dos foguetes e o repique de sinos impediram que se ouvisse o tiro homicida, dando ensanchas ao assassino de se retirar incólume, depois da negra façanha. Ainda pôde a vitima sacar do bolso uma pistola, mas caiu logo de bruços morto na calçada.” Fonte: Taunay (1923)
  Poupino é morto com um tiro de bala de prata, forma usada no período para se matar traidores. Com sua morte e com o controle político na mão dos liberais, os rusguentos têm, finalmente, o ponto mais alto de todo esse processo.

  Nesse período, traidores são mortos com bala de prata, o que acontece com Poupino Caldas, deixando claro que a vingança dos seus antigos companheiros da Zelosa da Independência estava completa e que junto do controle político da província, se concretiza como o ponto máximo de todo esse processo desencadeado pela a Rusga.

Revoltas que ocorreram no mesmo período:



Bibliografia utilizada:

Elizabeth Madureira Siqueira

A Rusga em Mato-grosso


Edição critica de documentos históricos

Dissertação de mestrado, apresentada em 1992 ao departamento de história da faculdade de filosofia, letras e ciência humanas da universidade de São Paulo, em três volumes. Siqueira, Elizabeth Madureira

História de Mato Grosso

Da ancestralidade aos dias atuais/ Elizabeth Madureira Siqueira- Cuiabá:

Entrelinhas, 2002.

Mendonça, Rubens de O tigre de Cuiabá. Cuiabá: IHGMT, 2005 (publicações avulsas,63) 54p.; 21 cm. Mato Grosso História Biográfica CDD segunda edição 981.72

Acontecimentos da Rusga - / Manifesto anônimo – Cuiabá

Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, 2001.

30p. ; 21cm. – (publicações avulsas).

1. Mato Grosso – História. I. Titulo. II. Série. (publicações avulsas)

CDD(20a ed) 981.72

* William Serdeira Garcia é acadêmico de História na UFMT 

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