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Rússia: direita, volver!
Na nova Rússia, o velho nacionalismo xenófobo está de volta, e com muita força. Ao que parece tudo (re) começou no tempo de Yeltsin, continuou no tempo de Putin e agora ninguém sabe muito bem o que fazer com ele.
Flávio Aguiar
De Carta Maior

Aos poucos as notícias foram se espalhando pela Europa inteira, e mesmo indo mais longe. Na nova Rússia, o velho nacionalismo xenófobo está de volta, e com muita força. Ao que parece tudo (re)começou no tempo de Yeltsin, continuou no tempo de Putin e agora ninguém sabe muito bem o que fazer com ele, nos tempos de Medvedev/Putin.

Yeltsin começou o movimento de fazer a nova Rússia emergente dos escombros da União Soviética tomar distância em relação legado do regime comunista. Uma das maneiras de capitalizar esse afastamento do ponto de vista simbólico foi a abolição das comemorações da revolução de outubro (pelo calendário ortodoxo, Juliano) que no calendário Gregoriano se dava no dia 07 de novembro. Mas para não cortar um feriado, e atender ao novo paradigma simbólico que se queria implantar, passou-se a festejar o dia 4 de novembro como o Dia da União Nacional Russa. O dia da revolução foi rebatizado no governo de Yeltsin como ?Dia da Concórdia e da Reconciliação?, mas perdeu o status de feriado. A reação popular foi mais negativa do que positiva: pesquisas da época registraram que 63% da população desaprovaram a medida.

Com o tempo cresceu o interesse oficial e também religioso por uma nova data: 4 de novembro. Nesse dia eclodiu, em 1612, uma revolta popular em Moscou, então ocupada por tropas polonesas e lituanas, que chegaram a ter um governo instalado na cidade. A revolta, duramente reprimida a princípio, teve sucesso, e uma de suas conseqüências foi a instalação da dinastia dos Romanov, que governaria a Rússia até a revolução de 1917.
Essa data também era e é significativa no calendário da religião cristã ortodoxa russa, celebrando a imagem de ?Nossa Senhora de Kazan?. Essa imagem, encontrada depois do incêndio de uma igreja em Kazan, em 1579, foi levada para Moscou em 1612.

Aparentemente a data de 4 de novembro não despertou muito interesse por parte da população. Porém, com o passar do tempo, ela caiu nas preferências de grupos neo-fascistas que, ainda que fragmentariamente, vêm se organizando na nova Rússia, despertando interesse sobretudo entre jovens. Esse neo-fascismo multifacetado e emergente se propõe, através de uma série de pequenos grupos e organizações, o combate à corrupção, à pobreza e as ações de ?outras nacionalidades? no interior e na vizinhança da Rússia, ações freqüentemente descritas como ?terrorismo?.

Vários desses grupos organizam manifestações no dia 4 de novembro em toda a Rússia, particularmente em Moscou, e na antiga Praça Vermelha, onde antes se realizava o tradicional desfile militar que saudava a hoje engavetada revolução de outubro. Um dos alvos preferenciais das manifestações são os estrangeiros. Gritos como ?A Rússia para os russos?, e ?A Rússia é tudo, o resto é nada?, ?Salve o sangue limpo?, ?Esporte, Saúde, Nacionalismo? são comuns entre os manifestantes que, de resto, agem em diferentes grupos que reúnem, cada um, algumas centenas de pessoas. Muitos deles fazem a tradicional saudação nazista, com a mão direita levantada, e não raro se ouvem até gritos de ?Heil, Hitler!?, o que provoca perplexidade em muita gente que, apesar dos novos tempos, não esquece o que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial.

Vários desses grupos entram em confronto com a polícia; neste ano houve mais de 500 detenções, mas ninguém permaneceu preso.

Por ora, essas manifestações permanecem dispersas, embora indiquem um estado latente de intolerância e perseguição que traz à lembrança os antigos progroms contra judeus. Só que agora os alvos dessa intolerância seriam múltiplos.

Na verdade os atuais governantes não sabem muito bem o que fazer com isso. A verdade é que hoje na Rússia misturam-se sentimentos de um poderio real, como demonstram a manutenção do segundo arsenal atômico do mundo e a poder ainda de pé do exército russo, e a lembrança dos tempos de humilhação depois da desarticulação da União Soviética. A OTAN apertou o cerco à Rússia conquistando posições nos Bálcãs (na agora aliada Albânia e no Kossovo), além de atrair correntes políticas da Polônia e da República Tcheca. Tentou, ainda sem sucesso, ganhar posições no Azerbaijão e sua política de aproximação com a Geórgia levou à intervenção direta do exército russo na região, defendendo os aliados de Moscou na província da Ossétia do Sul.

Inicialmente, o governo de Medvedev/Putin reagiu a esse aperto do cerco com ameaças militares de retaliação. Falou-se até numa ampliação do arsenal nuclear russo. Agora, Medvedev e Putin vem procurando uma saída no terreno político, ao proporem uma espécie de ?Conferência de Segurança Européia?, na qual a Rússia tomaria parte. A iniciativa, que tenderia a fazer diminuir o poderio do OTAN, foi bem recebida pelo presidente francês Nicolas Sarkozy. O impacto da crise financeira mundial forneceu uma moldura favorável à proposta, pois o realinhamento de forças que se seguirá, tanto no plano político quanto no econômico, terá reflexos militares. Como ninguém sabe ainda que inflexões o novo governo de Obama trará para a cena política, há um clima de busca de novas aproximações, como naquele joguinho de mesa que se chama ?Diplomacia?.

Dentro das limitações que a atual hegemonia conservadora impõe na Europa inteira, e diante do clima de recessão generalizada que se abate sobre ela, sobretudo na Alemanha e na Grã-Bretanha, mas que atinge também a economia russa, o pior cenário que se pode imaginar é o de uma Rússia isolada e acossada pelos mísseis da OTAN. Esse sim seria um cenário que poderia fazer daqueles manifestantes ainda fragmentados que erguem as mãos na saudação hitlerista em plena praça da revolução uma ameaça real dentro da Rússia e fora dela. O quadro política atual está longe de ser um cenário de sonho. Mas dá para pensar no pesadelo que seria um governo fascista tendo um gigantesco arsenal nuclear à disposição. E não esqueçamos: se McCain tivesse ganho, ou se um dia Sarah Palin ganhar nos EUA, o pesadelo será em dobro.

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior.

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